Em uma cena que parece saída de um capítulo sombrio do Brasil higienista, mas que na verdade foi gravada em maio de 2025 no Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns, a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), expôs a face mais cruel do patriarcado institucionalizado.
Ao deparar-se com a história de uma gestante de baixa renda à espera do seu oitavo filho, a chefe do Executivo estadual não titubeou em sugerir uma laqueadura forçada com uma frase que ecoa como um ataque direto aos direitos humanos: “Mas faz sem ela saber”. O vídeo, que veio a público agora em setembro de 2026 no calor da corrida eleitoral, não é apenas um deslize retórico. É o reflexo de uma mentalidade que enxerga o corpo das mulheres vulneráveis, em especial as periféricas e negras, como um território público a ser gerido, controlado e violado pelo Estado.
A declaração de Raquel Lyra atinge o cerne da autonomia e da integridade corporal. Propor uma esterilização sem o consentimento da paciente — sob o pretexto de “resolver” um problema social — evoca práticas eugênicas e de controle populacional forçado que a história há muito tenta sepultar. Quando uma governante, uma mulher que ocupa o espaço máximo de poder no estado, sugere a mutilação reprodutiva de outra mulher à revelia de sua vontade, ela chancela a violência obstétrica a partir do topo da pirâmide governamental.
Após a forte e necessária indignação de movimentos sociais e da opinião pública, a governadora publicou um vídeo de desculpas, afirmando ter se “indignado consigo mesma” e classificando a própria fala como um “equívoco infeliz”. No entanto, para as mulheres pernambucanas que dependem de um SUS frequentemente negligenciado, o pedido de desculpas tardio soa insuficiente e puramente estratégico para conter danos eleitorais.
O direito de decidir sobre o próprio corpo, o acesso a métodos contraceptivos conscientes e o planejamento familiar seguro são garantias fundamentais conquistadas a duras penas. Transformar a mesa de parto em um tribunal de exceção onde o Estado decide, às escondidas, quem deve ou não parar de reproduzir é de uma gravidade sem precedentes.
O episódio deixa uma lição amarga: a representatividade de gênero na política perde o sentido se não vier acompanhada de uma consciência de classe e de raça. O voto e a confiança das mulheres não podem servir para alimentar estruturas que, no silêncio dos corredores de um hospital público, planejam nos silenciar e nos violar “sem a gente saber”.