Presidente de extrema-direita do Paraguai, Santiago Peña, deixa o cargo após fraudes financeiras
Redação
05/11/2026 19:11
ASSUNÇÃO — O presidente do Paraguai, Santiago Peña, renunciou ao cargo nesta quinta-feira (5) após o colapso de uma das maiores instituições financeiras do país mergulhar seu governo em uma crise política irreversível. Economista de perfil conservador e aliado próximo do presidente norte-americano Donald Trump, Peña deixa o Palácio de López depois de perder o respaldo do Partido Colorado, legenda que comanda o país há décadas.
O estopim da queda foi a intervenção e liquidação do Ueno Bank pelo Banco Central do Paraguai, na terça-feira (3). A medida foi tomada após a autoridade monetária constatar que o índice de solvência do banco digital havia despencado para menos da metade do mínimo exigido pela legislação paraguaia. O fechamento da instituição provocou um terremoto econômico e social imediato: congelou as contas de aproximadamente 2,9 milhões de clientes — o equivalente a cerca de 60% da população adulta do Paraguai — e bloqueou US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo fundos da previdência estatal.
Conflito de interesses e isolamento
A crise financeira rapidamente se transformou em escândalo político devido às ligações diretas entre o presidente e a instituição liquidada. Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno Bank, até março de 2025. Além disso, a oposição e o Ministério Público apontaram conflito de interesses pelo fato de o mandatário ter nomeado um ex-dirigente do próprio banco para presidir o Banco Central, levantando suspeitas de favorecimento e omissão na fiscalização. Com protestos nas ruas e pedidos de prisão expedidos pela Promotoria contra diretores do banco, o isolamento de Peña tornou-se total nesta quinta-feira. Horacio Cartes, ex-presidente do país, líder do Partido Colorado e principal padrinho político de Peña, retirou o apoio ao governo e declarou-se favorável à destituição. Enquanto a Câmara dos Deputados se reunia para votar a abertura do processo de impeachment, Peña divulgou um pronunciamento em vídeo anunciando sua renúncia. A manobra, no entanto, não freou os parlamentares: os 78 deputados presentes aprovaram por unanimidade o prosseguimento do julgamento político.
Agora, a decisão está nas mãos do Senado paraguaio, que definirá se aceita a carta de renúncia ou se conclui o processo de impeachment. A diferença é crucial para o futuro político de Peña, já que a destituição pelo Congresso lhe retiraria o direito constitucional de assumir uma cadeira de senador vitalício. Na linha sucessória, o vice-presidente Pedro Alliana — que teve seu pedido de impeachment rejeitado pelos deputados — assumirá o comando do Executivo.
Repercussão política e desgaste internacional
A queda de Peña transcende as fronteiras paraguaias e adiciona um novo capítulo ao momento de turbulência enfrentado por lideranças da direita e da extrema direita nas Américas. Embora tenha construído sua carreira como técnico e ex-ministro da Fazenda de perfil liberal-conservador, Peña alinhou-se fortemente à agenda da extrema direita internacional durante seu mandato, estreitando laços ideológicos e diplomáticos com a Casa Branca de Donald Trump. Para analistas internacionais, o desfecho em Assunção representa um revés simbólico para esse campo político na região. A saída abrupta de um aliado estratégico de Washington ocorre em um cenário já marcado por perdas eleitorais recentes de grupos conservadores e radicais tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, reforçando a percepção de desgaste de governos alinhados a essa corrente diante de crises domésticas de gestão e transparência.

