A sutil arte de se promover através do martírio não é uma novidade na política, mas o recente episódio dos panfletos apócrifos espalhados por Pernambuco eleva o pragmatismo eleitoral a um nível alarmante de suspeição.
À primeira vista, os panfletos que surgiram pela cidade em ataque a governadora Raquel Lyra fazem o eleitor pensar ser obra da oposição. No entanto, quando se analisa a lógica elementar da sobrevivência política, uma pergunta inevitável surge: a quem realmente interessa tamanha baixaria?
Para a campanha de João Campos, consolidada e competitiva, disparar ofensas de teor tão cruel e absurdo seria um autêntico suicídio estratégico. O eleitorado pernambucano, historicamente avesso a ataques pessoais, reagiria instantaneamente com repúdio a esse tipo de tática, empurrando a simpatia popular direto para os braços da suposta vítima. Seria um erro amador demais para uma liderança que divide o topo das intenções de voto e para um partido (PSB) com larga experiência.
Por outro lado, o ganho político para o comitê da Governadora é imediato. Em um momento da campanha em que a gestão estadual enfrenta desgastes e cobranças legítimas sobre promessas não cumpridas, criação de Gabinete do Ódio, a narrativa da perseguição e do sofrimento opera como uma cortina de fumaça perfeita. Num piscar de olhos, o debate público deixa de ser sobre saúde, segurança ou segurança e passa a orbitar em torno da solidariedade à governadora.
A velocidade milimétrica com que a reação foi orquestrada também acende o alerta de quem acompanha a engenharia do poder. Em pouquíssimo tempo, vídeos, pronunciamentos oficiais emocionados e representações jurídicas pareciam já estarem prontos para turbinar as redes. Panfletos físicos com acusações tão absurdas parecem ter sido desenhados sob medida para chocar e gerar repulsa imediata, uma assinatura clássica de táticas de “bandeira falsa”.
Sendo assim, tenta-se pintar o adversário (João Campos) como monstro nos porões para, logo em seguida, posar sob a luz dos refletores como a face da resiliência, empurrando a culpa de um crime político sem digitais para o adversário que assiste, atônito, ao desenrolar de um enredo que só beneficia a quem se diz vítima.