Dois novos casos de “cura funcional” do HIV animam comunidade científica
Redação
28/07/2026 15:12
A comunidade científica global celebra mais um avanço histórico na luta contra o vírus da imunodeficiência humana. Durante a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026), realizada nesta segunda-feira (27) no Rio de Janeiro, pesquisadores anunciaram dois novos casos de pacientes que atingiram a remissão sustentada do HIV. Com esses casos, o total de curadas funcionais ou em remissão prolongada do vírus subiu para 13 em todo o mundo.
Assim como nos casos anteriores mais célebres — como o do “Paciente de Berlim” e do “Paciente de Londres” —, as novas conquistas foram frutos secundários de tratamentos complexos contra o câncer. Ambos os indivíduos passaram por transplantes de células-tronco e puderam suspender completamente a terapia antirretroviral diária.
O primeiro relato detalhado envolve um jovem norte-americano de 21 anos, morador do estado do Missouri. Em 2018, ele enfrentou o impacto de um diagnóstico duplo e simultâneo: descobriu que vivia com o HIV e que sofria de uma forma agressiva de leucemia. Em outubro de 2020, o jovem foi submetido a um transplante de medula óssea. Os médicos selecionaram um doador compatível que carregava uma característica genética raríssima: a mutação CCR5-delta32. Essa alteração genética modifica os receptores das células de defesa, impedindo fisicamente que a maioria das cepas do HIV consiga invadi-las. Apesar de ter enfrentado complicações severas que exigiram um reforço celular posterior, o procedimento foi bem-sucedido. Atualmente, o paciente está há 14 meses sem tomar os medicamentos antirretrovirais, mantendo exames de carga viral completamente zerados.
O segundo caso apresentado no Rio de Janeiro trouxe desafios científicos ainda maiores devido à complexidade do organismo do paciente. Ele convivia com o HIV e também possuía histórico de infecção pela hepatite B. Além disso, os testes mostravam que ele carregava variantes distintas do HIV, capazes de utilizar múltiplos caminhos biológicos para atacar o sistema imunológico.
O indivíduo também recebeu o transplante com células que possuíam a mutação protetora CCR5-delta32. Quatro anos após o procedimento, sob estrita vigilância médica, as medicações para o HIV foram interrompidas. O paciente já soma 12 meses sem os remédios, sem qualquer vestígio de replicação do HIV no sangue ou no tecido intestinal.
O caso acendeu um alerta importante: apenas 25 dias após a retirada dos remédios, a hepatite B do paciente voltou a se manifestar de forma ativa — uma vez que os antirretrovirais comuns também controlavam o vírus hepático —, demandando intervenções médicas imediatas e paralelas.
Apesar do otimismo que tomou conta dos corredores do evento em solo brasileiro, os especialistas mantêm uma postura de cautela e evitam cravar a palavra “cura definitiva”. O período de observação dos dois pacientes (de 12 e 14 meses) ainda é considerado curto pela medicina para descartar a existência de reservatórios latentes e escondidos do vírus no corpo. Por isso, o termo técnico adotado continua sendo “remissão sustentada”.
Os cientistas reforçam veementemente que o transplante de células-tronco envolve riscos severos à vida, exigindo a destruição prévia da imunidade do paciente através de quimioterapias pesadas. Trata-se de uma alternativa exclusiva para pessoas com cânceres hematológicos graves e que não pode ser estendida como tratamento padrão para a população geral com HIV. Para a imensa maioria dos pacientes, os coquetéis antirretrovirais modernos seguem sendo o método mais seguro e eficaz para garantir uma vida longa, saudável e intransmissível.

