Governador de Santa Catarina, Jorginho Mello (PL), manda indígena pra “puta que o pariu”.
Redação
09/07/2026 16:56
JOSÉ BOITEUX (SC) – Uma agenda oficial do governo de Santa Catarina terminou em forte polêmica e grave crise institucional. Durante uma vistoria técnica nas obras da Barragem Norte, em José Boiteux, o governador Jorginho Mello (PL) perdeu o controle diante dos protestos de uma liderança do povo Laklãnõ-Xokleng.
O chefe do Executivo estadual respondeu às cobranças da comunidade proferindo palavrões de baixo calão, em um episódio que gerou repúdio imediato de entidades indígenas e parlamentares.
O desentendimento ocorreu enquanto o governador concedia uma entrevista coletiva à imprensa local sobre o andamento das obras da estrutura. O projeto visa a contenção de cheias na região do Vale do Itajaí.
Durante a gravação, uma mulher da comunidade, identificada como cacique de uma das aldeias locais, interrompeu a fala do governador. Ela protestava e exigia o respeito aos direitos territoriais e às demandas históricas de seu povo.
Em registros em vídeo que circulam nas redes sociais, é possível ouvir o momento exato em que o governador reage às cobranças da manifestante. Enquanto a liderança gritava ao fundo cobrando respostas, Jorginho Mello interrompeu a própria declaração e disparou: “Vai para a puta que o pariu”.
A manifestante continuou a exigir respeito. O governador voltou a rebater: “A senhora não quer ir à merda?”. Diante da insistência da cacique de que a barragem estava sendo operada dentro de terra indígena, ele respondeu de forma ríspida por duas vezes: “E eu com isso?”.
O impasse histórico da Barragem Norte
O conflito na Barragem Norte expõe uma ferida social e ambiental que se arrasta por décadas na região. A estrutura foi projetada e construída pelo poder público com o objetivo de mitigar as recorrentes e destrutivas enchentes que afetam cidades populosas localizadas abaixo do rio no Vale do Itajaí, como Blumenau e Rio do Sul.
No entanto, a engenharia da barragem foi erguida integralmente dentro dos limites homologados da Terra Indígena Ibirama-Laklãnõ.
Na prática, toda vez que as comportas da barragem são fechadas para salvar os municípios vizinhos das inundações, o reservatório transborda e alaga o território sagrado do povo Xokleng. O fechamento submerge estradas locais, isola aldeias inteiras, destrói plantações de subsistência e força a evacuação de famílias indígenas de suas casas.
Atualmente, o governo do Estado executa um pacote de obras e reformas estruturais na região, orçado em cerca de R$ 34 milhões. O montante inclui a construção de novas moradias, escolas e melhorias em acessos viários. Esses investimentos não são voluntários. Eles representam contrapartidas e reparações históricas determinadas por decisões da Justiça Federal após anos de disputas judiciais travadas pela comunidade.
Reações e posicionamentos
Após a repercussão negativa das imagens, o governador utilizou suas redes sociais para apresentar sua versão do ocorrido. Jorginho Mello não se desculpou pelos termos utilizados, mas afirmou ter sido “cercado e desrespeitado por indígenas” durante o cumprimento da agenda institucional em José Boiteux. Segundo o governador, o protesto da liderança foi motivado por “desinformação” promovida por opositores de sua gestão. Ele garantiu que o cronograma de obras civis e a entrega das casas prometidas à comunidade indígena não serão afetados pelo episódio.
Por outro lado, o povo Laklãnõ-Xokleng reagiu com indignação. Lideranças locais publicaram notas de repúdio classificando a postura do chefe do Executivo catarinense como um ato de “extrema arrogância, racismo institucional e violência verbal” contra uma autoridade tradicional e ancestral.
O caso também ecoou em Brasília. Ministros e secretários ligados às pastas de povos originários e direitos humanos manifestaram solidariedade à cacique ofendida, criticando a quebra de decoro institucional por parte do governador de Santa Catarina.

