Argentina enfrenta ameaça de recessão, aumento da pobreza e fechamento de empresas
Consumo e investimentos em queda, perda de empregos formais e piora nos indicadores sociais expõem os limites do ajuste fiscal promovido pelo presidente argentino
A economia da Argentina voltou a emitir sinais de alerta, colocando em xeque a capacidade do governo de Javier Milei de transformar o ajuste fiscal em uma recuperação econômica capaz de alcançar a população. Depois de reduzir drasticamente os gastos públicos e obter uma desaceleração expressiva da inflação, o país enfrenta uma nova perda de fôlego, marcada pela retração do consumo, pela queda dos investimentos e pela deterioração do mercado de trabalho.
Os indicadores mais recentes revelam uma contradição no programa econômico do presidente ultraliberal: enquanto o governo busca consolidar o equilíbrio das contas públicas, a atividade econômica perde força e milhões de argentinos continuam enfrentando dificuldades para pagar as despesas básicas.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina (Indec), o Produto Interno Bruto (PIB) recuou 0,6% no segundo trimestre de 2026 em relação aos três meses anteriores. O consumo privado caiu 2,4%, o consumo público diminuiu 2,3% e os investimentos recuaram 0,8% no mesmo período. Os números indicam que a perda de dinamismo não está restrita ao setor público: também atinge famílias e empresas.
Na comparação com o segundo trimestre de 2025, entretanto, o PIB cresceu 2%. O contraste mostra que a economia ainda registra expansão em termos anuais, mas perdeu força ao longo de 2026.
Risco de recessão volta a preocupar o governo
O cenário se tornou ainda mais delicado em outubro. Dados divulgados pelo governo argentino mostraram recuperação parcial da indústria e da construção em agosto, mas insuficiente para compensar as quedas anteriores. As projeções de analistas consultados pelo Banco Central passaram a apontar uma contração próxima de 1% do PIB no terceiro trimestre, na comparação com o trimestre anterior.
Se confirmada pelos números oficiais, a segunda queda trimestral consecutiva caracterizará uma recessão técnica.
As estimativas para o crescimento anual também foram revistas para baixo. A expectativa média dos analistas para o PIB argentino em 2026 caiu para aproximadamente 1,5%, bem abaixo dos 3,5% projetados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) em julho.
A deterioração da atividade mostra que estabilizar os indicadores macroeconômicos é diferente de garantir uma recuperação consistente. A redução da inflação pode melhorar as condições para o planejamento financeiro, mas não assegura, por si só, aumento do consumo, geração de empregos ou expansão da renda.
Mais de 32 mil empregadores deixaram de constar nos registros
Outro indicador preocupante é a redução do número de empregadores registrados no país.
Dados da Superintendência de Riscos do Trabalho, divulgados pelo jornal La Nación e repercutidos pelo UOL em 11 de outubro, mostram que a Argentina passou de 512.357 empregadores registrados em novembro de 2023, antes da posse de Milei, para 480.067 em julho de 2026. A diferença representa uma queda de aproximadamente 32,3 mil registros, equivalente a 6,3%.
O número precisa ser interpretado com cautela: a redução de empregadores registrados não significa necessariamente que todas essas empresas tenham fechado definitivamente. Mudanças societárias, reorganizações e alterações no quadro de funcionários também podem afetar o indicador. Ainda assim, a retração aponta um enfraquecimento da base de empregadores formais.
O mercado de trabalho também apresenta sinais negativos. O setor privado perdeu cerca de 121 mil empregos formais entre junho de 2025 e junho de 2026, segundo os dados citados na mesma reportagem. O total de trabalhadores registrados caiu para aproximadamente 6,1 milhões.
Custos operacionais elevados, crédito caro, redução dos investimentos públicos e dificuldades para sustentar a demanda interna estão entre os fatores que pressionam a atividade empresarial.
A questão central é que empresas menores e negócios voltados ao mercado doméstico dependem diretamente do poder de compra da população. Quando as famílias reduzem despesas, o faturamento cai, os investimentos são adiados e a contratação de trabalhadores perde força.
Pobreza volta a subir e expõe o custo social do ajuste
Os problemas econômicos também aparecem nos indicadores sociais. Dados oficiais divulgados em setembro mostram que a pobreza atingiu 32,3% da população urbana argentina no primeiro semestre de 2026, ante 28,2% no semestre anterior. A indigência, indicador que identifica quem não consegue sequer custear uma cesta básica de alimentos, aumentou de 6,3% para 7,5%.
Isso significa que aproximadamente 9,7 milhões de pessoas nas áreas urbanas estavam abaixo da linha da pobreza, incluindo cerca de 2,25 milhões em situação de indigência.
A pobreza infantil também permanece elevada: quase 45% das crianças com menos de 15 anos estavam nessa condição, segundo os dados divulgados pelo Indec.
A piora ocorreu porque a renda média per capita das famílias cresceu 11,5%, enquanto o custo da cesta básica avançou quase 20%, de acordo com os números reportados pela Associated Press.
O resultado evidencia uma dificuldade fundamental para o programa de Milei: a desaceleração da inflação não significa que os preços tenham voltado aos níveis anteriores, nem que os salários e benefícios sociais tenham recuperado automaticamente o poder de compra perdido.
Para as famílias de baixa renda, a combinação de despesas elevadas, renda insuficiente e menor disponibilidade de trabalho torna a recuperação particularmente difícil.
A inflação caiu, mas a economia real continua sob pressão
Desde que assumiu a Presidência, em dezembro de 2023, Milei colocou o ajuste das contas públicas no centro de sua política econômica. O governo cortou despesas, reduziu subsídios e adotou medidas para conter o déficit fiscal e a inflação.
A estratégia produziu resultados importantes na estabilização macroeconômica. O FMI reconheceu a forte desaceleração da inflação e a obtenção de superávits fiscais primários nos primeiros anos do programa. A inflação, que havia alcançado níveis extremos, diminuiu substancialmente em relação ao período anterior.
O problema é a distribuição dos custos e benefícios desse processo.
A redução das despesas públicas pode melhorar as contas do governo, mas também diminui a demanda em setores dependentes de obras, contratos estatais e transferências. Ao mesmo tempo, a perda de poder aquisitivo limita o consumo e dificulta a recuperação das empresas que dependem do mercado interno.
Em julho, a atividade econômica argentina caiu 1,4% em relação ao mesmo mês do ano anterior, segundo o Indec. O comércio atacadista e varejista recuou 5,1%, enquanto a indústria manufatureira caiu 4,6%.
Esses resultados reforçam a percepção de que os benefícios da estabilização não estão chegando de maneira uniforme aos diferentes setores da economia.
Exportações e commodities sustentam parte do crescimento
A economia argentina não está em retração generalizada. Setores ligados às exportações, à agropecuária, à mineração e à energia apresentam oportunidades importantes de expansão e podem contribuir para a entrada de dólares no país.
No segundo trimestre, as exportações cresceram 2,5% em relação ao trimestre anterior e 13,7% na comparação anual. A mineração, a exploração de pedreiras e a agropecuária também registraram resultados positivos em indicadores setoriais.
Essa dinâmica, contudo, tem limites. Uma expansão concentrada em commodities pode elevar as exportações e contribuir para o PIB sem produzir, no curto prazo, o mesmo efeito sobre o comércio, os serviços e o emprego urbano que uma recuperação disseminada do consumo teria.
O desafio do governo é fazer com que os investimentos e as receitas provenientes desses setores se convertam em atividade econômica mais ampla, com empregos, renda e oportunidades para diferentes segmentos da população.
O desafio de Milei é transformar estabilização em bem-estar
A experiência argentina expõe uma questão que vai além da disputa ideológica entre Estado e mercado: qual é o custo social necessário para estabilizar uma economia e até que ponto esse custo pode ser sustentado sem comprometer a própria recuperação?
Milei defende que o ajuste fiscal e a redução da intervenção estatal criam as condições para uma economia mais eficiente e competitiva. Seus críticos, por outro lado, apontam que a contração do consumo, a perda de empregos e a deterioração de indicadores sociais mostram os limites de uma estratégia que prioriza o equilíbrio das contas públicas sem garantir uma retomada ampla da renda e da atividade.
Os dados não permitem afirmar que todas as dificuldades atuais sejam consequência exclusiva das medidas do governo. A Argentina já enfrentava problemas estruturais, desequilíbrios fiscais e uma longa trajetória de instabilidade econômica antes da chegada de Milei ao poder. Ainda assim, a política de ajuste adotada pela atual administração é parte central do contexto em que esses indicadores se deterioraram.
O país conseguiu reduzir a inflação e melhorar determinados indicadores fiscais, mas voltou a enfrentar o risco de recessão, enquanto a pobreza aumentou e o mercado de trabalho formal encolheu.
O teste decisivo para o governo será demonstrar que a estabilização pode ir além dos números das contas públicas e chegar à vida cotidiana dos argentinos.
Sem recuperação consistente do consumo, dos investimentos e do emprego, o equilíbrio fiscal corre o risco de coexistir com uma economia frágil e uma população que ainda não sente os benefícios prometidos.

