Estratégia ou omissão? O silêncio de Raquel Lyra sobre apoio a Lula no 2º turno
Redação
05/10/2026 23:04
, atualizado 05/10/2026 23:04
A governadora reeleita de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), escolheu o conforto do muro ao oficializar sua neutralidade no segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Sob o pretexto de um verniz regionalista batizado de “pernambuquismo”, a gestora tenta camuflar como “coerência” o que, na verdade, se desenha como uma conveniente omissão política diante do cenário eleitoral mais polarizado e decisivo do país.
Ao cravar que colocará “Pernambuco em primeiro lugar”, Lyra flerta com o populismo geográfico para justificar a recusa em tomar partido. A estratégia repete meticulosamente o oportunismo de 2022. O problema é que o ecumenismo político que serve para vencer eleições locais cobra um preço alto em termos de liderança nacional.
A contradição da “gratidão orçamentária”
A retórica da governadora desmorona na primeira tentativa de conciliar os fatos. Nas entrevistas coletivas concedidas logo após a vitória em primeiro turno, Raquel fez questão de desfiar um rosário de agradecimentos ao Palácio do Planalto. Citou os recursos federais fundamentais para o estado:
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- Financiamento para 34 mil moradias
- Verbas para o Metrô do Recife e a ferrovia Transnordestina
- A retomada das obras da BR-104
Dizer-se “muito grata” pelas portas abertas e pelos bilhões enviados por Lula enquanto se recusa a apoiá-lo contra o bolsonarismo é o retrato do puro pragmatismo fisiológico. Raquel Lyra quer o bônus dos investimentos da esquerda e o voto da direita conservadora, sem precisar carregar o ônus ideológico de nenhum dos lados. É a política reduzida a um balcão de negócios institucionais, onde as convicções programáticas são jogadas para escanteio.
O peso do rancor paroquial
Nos bastidores do Palácio do Campo das Princesas, a justificativa informal para lavar as mãos baseia-se em um ressentimento puramente local. Aliados queixam-se de que Lula quebrou a promessa de neutralidade e subiu no palanque de João Campos (PSB) na reta final do primeiro turno.
Guiar o posicionamento do segundo maior colégio eleitoral do Nordeste com base em mágoas de palanque paroquial revela uma alarmante miopia política. Raquel Lyra parece ignorar que os modelos macroeconômicos representados por Lula e Flávio Bolsonaro são diametralmente opostos. Enquanto o atual governo adota o Estado como indutor do desenvolvimento regional, o projeto bolsonarista prega o enxugamento regulatório e a restrição de recursos discricionários para o Nordeste — justamente a fonte dos repasses que a governadora tanto celebrou.
O risco calculado de governar sem lados
A tentativa de Raquel Lyra de se equilibrar na corda bamba ideológica pode se provar um tiro no pé a longo prazo. Se Flávio Bolsonaro (que lidera o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% de Lula) for eleito, Pernambuco corre o risco real de ver minguar o fluxo de verbas federais de um governo que historicamente prioriza o Sul e o Sudeste. Se Lula virar o jogo e se reeleger, a governadora terá que lidar com o Palácio do Planalto sabendo que faltou ao presidente no momento mais agudo de sua sobrevivência política.
Ao escolher não escolher, Raquel Lyra não demonstra independência; demonstra fraqueza de liderança. O “pernambuquismo” de ocasião, isolado no mapa e alheio aos rumos democráticos do país, corre o risco de transformar o estado não em um ente soberano, mas em uma ilha politicamente isolada.

